Mídia e Poder - Claudia Giron

Discute sobre Mídia e Poder, orientado pelo Profº Dr. Dimas A. Künsch - “Somos todos prisioneiros, mas alguns de nós estão em celas com janelas, e outros sem.” (Khalil Gibran)

23.7.08

Um olhar sobre a visão…

Esse é um artigo que escrevi para uma matéria da Pós. Ficou grande para o blog, mas achei que tem muita relação com os próximos posts e resolvi publicar. É um estudo sobre o olhar:

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara” - José Saramago.
É comum pensar que ver é o ato de mirar os olhos em um alvo, mas será que é apenas isso que compreende enxergar?

Para as pessoas, ver pode ser algo natural e inconsciente, o que faz com que não reflitam sobre o assunto.
Nos cegos, a parte do cérebro que é destinada à visão pode ser substituída por outros sentidos, que serão mais desenvolvidos para suprir a falta da percepção visual. A pessoa que nasce cega tem essa substituição de uma forma quase que natural, uma vez que ainda vai construir sua percepção de mundo. Já aqueles que perdem a visão após um tempo de vida, precisam se readaptar, o que exige um grande aprendizado e esforço. São esses os casos que tornam clara a complexidade do assunto.

Os diretores João Jardim e Walter Carvalho entrevistaram dezenove personalidades que falam sobre as deficiências visuais e o que engloba o olhar. Esse trabalho resultou no documentário “Janela da Alma”. O título foi inspirado na frase de Leonardo Da Vinci: “O olho é a janela da alma, o espelho do mundo”. O filme relata as dificuldades e habilidades de pessoas que perderam parte ou totalmente a visão, como elas lidam com a falta desse sentido, as mudanças de identidade, quais são as emoções que envolvem a transformação da realidade e como isso se dá com cada pessoa. É durante os relatos que o documentário transparece o quanto o repertório pessoal influencia na forma de olhar e perceber a vida.

Oliver Sacks, um neurologista e antropólogo inglês, sabe contar de forma descontraída as histórias de seus pacientes. Em “Um Antropólogo em Marte”, ele descreve a trajetória de Virgil Adamson, um homem que voltou a enxergar após 40 anos de cegueira. Ele mostra que olhar ultrapassa o ato de ver, pois mais que abrir os olhos, Virgil teve que aprender a enxergar, fazer relações e distinguir semelhanças e diferenças. E foi exatamente nesse ponto que enfrentou dificuldades. Faltava para ele a habilidade de reconhecer aquilo que era visto. Como não possuía um referencial, ele não conseguia relacionar o que via, pois não havia moldes para identificação.
Virgil e outros pacientes deram provas de que a percepção capta um composto de cores, formas e movimentos, mas a interpretação para entender o que é visto é um processo cerebral que precisa ser aprendido e desenvolvido. Para os bebês, essa é uma reação espontânea, porém, nos adultos, o ato de ver tem ligação com os registros culturais que a pessoa carrega durante a vida, pois o cérebro faz correlações aos estímulos visuais. Assim como alguém que fica cego precisa se adaptar para entender o mundo sem os olhos, aqueles que eram cegos e começam a enxergar, precisam aprender a ver.

Ao avaliar esses materiais é possível concluir que os indivíduos não percebem exatamente as mesmas informações ao ficarem expostos a uma mensagem, principalmente quando ela é visual. Cada um terá uma forma de receber, entender e classificar uma mesma mensagem. Isso significa que o observador de uma imagem não é apenas um observador, mas alguém que identifica de uma forma única (de acordo com seu histórico de vida) e compreende com suas particularidades a narrativa da figura, porque a visão é uma construção cultural. Uma situação que exemplifica esse cenário é a reação de diferentes pessoas ante a uma exposição de arte. Dependendo de seu repertório, ela terá uma impressão e uma conclusão sobre aquilo que está vendo. Ainda nesse caso, pode-se identificar uma outra interpretação através de expectativas ou do mito que uma obra de arte ganha ao se tornar conhecida. A obra de Leonardo Da Vinci, "Mona Lisa" (ou La Gioconda), famosa pelo enigmático sorriso retratado e pela destreza da técnica de esfumato, exposta atualmente no Museu do Louvre, em Paris, é conhecida mundialmente e recebe diversas contribuições de mitos em seus pontos de difusão. Alguns lhe atribuirão tristeza, outros serenidade e há também aqueles que acrescentam uma gravidez à personagem. O fato é que a cultura a qual o homem é exposto interfere na interpretação daquilo que ele está vendo. E essa é uma prova de que os meios de comunicação não são capazes de manipular irrevogavelmente as pessoas, como muitas teorias tentam sustentar. Todo indivíduo tem um “eu” que o torna ímpar a qualquer outro.

Em seu artigo “A educação do olhar: A atitude participativa do leitor na fruição de imagens e as diferenças de gênero”, o Profº Dr. Carlos Roberto da Costa escreve que um leitor, tanto visual como verbal, acrescenta significados às linguagens após esse processo de identificação e compreensão das mensagens. Entre as citações está Lorenzo Vilches, na qual ele aborda que um leitor possui competências que são resultados de uma educação do olhar. Para "ver" e enxergar uma nova imagem, como uma foto, por exemplo, um adulto passa por um processo que vai do reconhecimento, onde ele identifica os elementos presentes na figura que lhe são familiares, até chegar na interpretação daquele conjunto, contextualizando as partes identificadas num todo. A foto exerce seu papel de mensagem, mas compete ao observador acrescentar um sentido para aquela imagem. No caso da publicidade, a narrativa da foto é criada por um comunicador para transmitir uma informação, que deverá ser decifrada e reconhecida por um leitor.

criado por claudinhagiron    20:57 — Arquivado em: Sem categoria

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