Mídia e Poder - Claudia Giron

Discute sobre Mídia e Poder, orientado pelo Profº Dr. Dimas A. Künsch - “Somos todos prisioneiros, mas alguns de nós estão em celas com janelas, e outros sem.” (Khalil Gibran)

11.4.08

O Suicida e o Computador

Por: Luis Fernando Veríssimo

Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:

"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo." Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:

"Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicidio substitui o final. O suicídio é o final." Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:

"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor." Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:

"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio." Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:

"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota." Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:

"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."

Era isso? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.

E foi dormir.

criado por claudinhagiron    9:56 — Arquivado em: Crônicas

21.3.08

O Fantasma do Gelo

Por: Claudia Giron

É comum acontecerem fatos curiosos nas casas. Às vezes são portas que batem, luzes que se acendem, móveis que rangem ao calar da noite, barulhos estranhos que surgem. E nós, que desconhecemos as verdades sobrenaturais, estamos sempre buscando respostas para justificar esses acontecimentos anormais.
Certa vez, um mistério pairou sobre nossa casa. Minha mãe abriu a geladeira e teve uma surpresa: tomate congelado, água congelada, carne congelada, tudo congelado. Diante da situação inusitada e sem imaginar o que estaria por vir, a primeira idéia que lhe passou pela cabeça foi que a geladeira estava com problemas. Pacientemente ela descongelou tudo, jogou o que havia estragado fora, limpou a geladeira e percebeu que o botão que regulava a temperatura estava marcando “4”. Aliviada por não ter que trocar o eletrodoméstico, ela saiu questionando todos em casa pra saber: “Quem desregulou a geladeira?”. Mas ninguém havia tocado no botão.
Como o problema estava resolvido, ela arquivou o caso e deu tudo por encerrado.
No dia seguinte, ela abre a geladeira e… leite congelado, alface congelado, feijão congelado, tudo congelado. Dessa vez, o primeiro passo foi verificar o tal botão. E lá estava ele novamente marcando “4”. Não tão pacientemente quanto na primeira vez, ela descongelou tudo, limpou a geladeira, ajustou o botão, tentou mais uma vez perguntar e ninguém havia mexido nele. Dessa vez ela usou a justificativa de que devia ter esbarrado e alterado a temperatura sem querer.
Mais dois dias repetiram essa cena. Agora, já havia eliminado até a possibilidade de esbarrar acidentalmente, porque o botão sempre marcava exatamente “4”. Era realmente muito estranho. Ela pensava em várias possibilidades, simulava situações, e nada dava sentido para aquelas ocorrências. Não havia nenhuma hipótese que conseguisse justificar o fato misterioso que congelava tudo.
Já esgotada desse mistério absurdo, minha mãe desabafou com meu pai:
- Não agüento mais. Quase uma semana congelando as coisas. Quem será que está rodando esse botão???
E eis que a criaturinha loira ouve a conversa e, com a chupeta no cantinho da boca responde:
- Fui eu Mamãe, é que eu fiz “cato ano”!!!!!! E indica a quantidade com os dedinhos.
A única alternativa que restou pra minha Mãe foi sorrir, me beijar e, me abraçando, explicar que nem todo número quatro era encantador como a minha idade. Ahhh.. se além da geladeira eu tivesse aprendido a congelar também o tempo.

criado por claudinhagiron    18:39 — Arquivado em: Crônicas

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