Mídia e Poder - Claudia Giron

Discute sobre Mídia e Poder, orientado pelo Profº Dr. Dimas A. Künsch - “Somos todos prisioneiros, mas alguns de nós estão em celas com janelas, e outros sem.” (Khalil Gibran)

8.8.08

O Brasil Chora!

Primeiro lugar em um concurso de redação da rede municipal de ensino de Joinville. A redatora tem 14 anos e o título recomendado era “Dai pão a quem tem fome.”

"Certa noite, ao entrar em minha sala de aula, vi num mapa-múndi, o nosso Brasil chorar: O que houve meu Brasil brasileiro? Perguntei-lhe!

E ele, espreguiçando-se em seu berço esplêndido, esparramado e verdejante sobre a América do Sul, respondeu chorando, com suas lágrimas amazônicas:

- Estou sofrendo. Vejam o que estão fazendo comigo… Antes, os meus bosques tinham mais flores e meus seios mais amores. Meu povo era heróico e os seus brados retumbantes. O sol da liberdade era mais fúlgido e brilhava no céu a todo instante. Onde anda a liberdade? Onde estão os braços fortes? Eu era a Pátria amada, idolatrada. Havia paz no futuro e glórias no passado. Nenhum filho meu fugia à luta. Eu era a terra adorada e dos filhos deste solo era a mãe gentil. E era gigante pela própria natureza, que hoje devastam e queimam, sem nenhum homem de coragem que às margens plácidas de algum riachinho, tenha a coragem de gritar mais alto para libertar-me desses novos tiranos que ousam roubar o verde louro de minha flâmula.

E não suportando as chorosas queixas do Brasil, saí de casa e fui para o jardim. Era noite e pude ver a imagem do Cruzeiro que resplandece no lábaro que o nosso país ostenta estrelado. Pensei mais… Quem nos devolverá a grandeza que a Pátria nos traz? Voltei à sala, mas encontrei o mapa silencioso e mudo, como uma criança dormindo em seu berço esplêndido. Pensei… Conseguiremos salvar esse país sem braços fortes? Pensei mais… Quem nos devolverá a grandeza que a Pátria nos traz?

criado por claudinhagiron    16:20 — Arquivado em: Mundo

20.6.08

Sorriso de Isabella assombra o Brasil

                                                         

Achei legal essa matéria porque menciona a influência da mídia no caso. Foi a única notícia coerente que li durante todo o processo do caso Isabella.

Fonte: Uol Notícias

O sorriso de Isabella assombra o Brasil, diz uma crônica publicada na tarde de quarta-feira no site do jornal francês Le Monde.
O texto, assinado pelo jornalista Jean-Pierre Langellier, diz que há várias semanas o Brasil parece "assombrado pelo sorriso de Isabella, assim como ficou a Inglaterra há um ano pelo sorriso da pequena Madeleine McCann, que desapareceu em Portugal e até hoje não foi localizada".
"O anúncio do crime provocou uma verdadeira comoção social em um país que bate os recordes de violência com 50 mil homicídios por ano", diz o diário francês.
A crônica busca explicar as razões pelas quais a história suscita tanta emoção do público e afirma que a principal delas está no fato de seus protagonistas "pertencerem a uma família de classe média, com a qual inúmeros brasileiros podem facilmente se identificar".
"(O interesse do público) É também em parte pelo fato do casal, que nega envolvimento na morte da menina, ter conseguido ficar solto durante várias semanas até ser preso no dia 8 de maio e ter concordado em dar uma longa entrevista a um programa de televisão de grande audiência".
Fermento
E é na mídia, afirma a crônica, que reside "o fermento para excitação popular".
"Os meios de comunicação alimentaram um clima de frenesi em torno do assunto. Para sua cobertura, a Rede Globo, maior do país, mobilizou em permanência 15 equipes de repórteres e cinegrafistas, três veículos de transmissão ao vivo e um helicóptero."
"O próprio presidente Lula ficou um pouco preocupado com tamanha atenção da mídia, a seus olhos, excessivos. Ao pedir prudência, Lula pediu que o casal não seja declarado culpado antes de ser julgado".
Jean-Pierre Langellier cita dados do ministério da Saúde, segundo os quais a cada dez horas uma criança com menos de 14 anos é assassinada no Brasil. Parte dessas mortes acontece dentro do contexto familiar, dizem as estatísticas.
"O caso Isabella dá aos brasileiros a ocasião de refletir sobre as causas dessa violência e aos meios de reduzi-la."
Especialistas ouvidos por Langellier afirmaram que além de seus principais motivos, como pobreza e dilaceramento familiar, "a violência dentro das casas faz parte da cultura brasileira".
"O castigo corporal continua, para muitos pais, um método pedagógico eficaz e legítimo. A duração da escravidão no Brasil - de mais de três séculos - e o caráter tardio de sua abolição (1888) desempenham também um papel na permanência dessa prática."

criado por claudinhagiron    12:35 — Arquivado em: Mundo

8.4.08

Existe Romance no Fascismo? (I. II. III.)

                                                   

 

Por: Thiago Zanetin (Thiagão)

Os(as) senhores(as) certamente recordam, ou ouviram falar de Gabriele Sandri, o jovem torcedor da Lazio morto numa emboscada por um policial italiano, em Arezzo, quando seguia para Parma, na Emilia-Romagna.

Gabriele era DJ. Poucos meses antes de sua morte, freqüentava - sozinho - a Curva Nord do Olimpico, de Roma. A Nord é dominada (essa é a palavra) pelos ultrà - os organizados da Itália - Irriducibili, uma das torcidas mais politizadas da Europa.

Gli Irriducibili adotam um posicionamento de extrema direita; são fascistas assumidos. Entre seus cartazes, faixas, panos e adereços, vêem-se com clareza citações ao regime de Mussolini, tais quais “Lazio, mea Lux´´ - alusão a “Dux, mea Lux´´(1) - e brados do fascio que se transformam em gritos de guerra potentes - “Boia Chi Molla´´(2) e “Avanti Ragazzi di Budapest´´(3), por exemplo.

Gabriele estava entre essas pessoas para torcer pela Lazio, mas não necessariamente poderia ter as mesmas preferências políticas ou ideológicas. O fato é que sua morte está longe de criar um mártir sobre a segurança nas praças esportivas, mas parece ter se tornado uma bandeira forte entre os direitistas - mesmo que, até agora, não haja uma só evidência publicada sobre Sandri ser fascista, ou não.

criado por claudinhagiron    10:30 — Arquivado em: Mundo

I.

O Fascismo começou com Mussolini, nos anos 1920, mas seus preceitos estavam lançados desde a primeira destruição da Itália, na I Guerra Mundial (1914-1918). A Guerra no mundo, naquele momento, foi o “grand finale´´ de uma série de conflitos que a Itália enfrentava desde sua unificação (1860) e posteriores à mesma.

Nesse contexto, surge Benito Mussolini. Comunicador nato e orador de primeiríssimo time, Benito soube jogar como ninguém com o frágil imaginário devastado do italiano, que deixara as esperanças de Mamelli em segundo plano após a derrota.

Mussolini assumiu o poder prometendo vitória. Não a vitória daquela Itália quebrada, unificada nos tratados, mas ainda dividida em seus antigos reinos, repúblicas e dialetos. Quem venceria era o povo italiano. Do Norte ao Sul. De Verona a Napoli, de Venezia a Reggio-Calabria, de Padova a Vibo Valentia.

O ditador se pôs a resgatar, em sua visão, os grandes feitos que teriam feito do povo italiano um grupo seleto e superior aos demais - repito: na visão de Mussolini - uma tentativa desesperada de retornar à Roma imperialista, senhora do mundo.

Do grande Império Romano, surgiu a Roma fascista, o centro do regime totalitário [NOTA: mal soubera Mussolini que os germânicos - bárbara ou civilizadamente - decretariam nova queda desta citadela].

Das culturas absorvidas pelo antigo Império, Benito aboliu os dialetos e, oficialmente, unificou o idioma italiano. O “Ave´´ virou “Seig Heil´´(4) ou “A noi, cammerata´´. O “Delenga Cartago´´ era a marcha à Etiópia, “Faccetta Nera´´(5). O exército eram os “Camicie Nere´´.

Dos tempos de vassalagem e senhoria (séculos XI ao XVI, quando a maioria das atuais comuni italianas cresceram e se desenvolveram sobre regime podestà) ele tirou seu “título de nobreza´´: era o duque, “il duce´´, a autonomia.

Ao contrário de Hitler, Mussolini não pregava abertamente a morte de grupos que considerasse inferiores, fossem eles étnicos - salvo a questão do avanço à África - ou religiosos. Todos o que fossem italianos poderiam se beneficiar, mas (e esse é o ponto) só eram considerados italianos os que adotavam o Fascismo.

Consciência nacionalista extremada. Desespero. Quem pode julgar o que o italiano estava pensando, naquela época? “L´Italia agli italiani´´, “Meglio morto che rosso´´, “Credere, obbedire e combattere´´, “Grazie a Dio sono italiano´´ e “Vincere e vinceremo´´ eram bordões simples e tão poderosos popularmente quanto se revelariam fúnebres no pós-II Guerra.

Até hoje há quem acredite que Mussolini foi, ou é, historicamente mal-compreendido. A nova Carta-Magna italiana, de 1948, jamais permitiria que o Fascismo se restabeleça na Itália em tais proporções, mas não o pode impedir de se reestabelecer; o partido fascista existe, até hoje.

criado por claudinhagiron    10:28 — Arquivado em: Mundo

II.

As bases da democracia italiana permitem que todos se expressem livremente e defendam suas idéias, desde que não o façam por intermédio de força bruta. E essas idéias podem ser, sim, fascistas.

Já ouviram falar de uma banda chamada ZetaZeroAlfa? O grupo romano tem um dos melhores instrumentais de rock da Itália. Tocam fácil, um som muito gostoso. Mas, em suas letras, defendem o Fascismo de forma quase constrangedora.

Como eles, há outros. E, nos outros, e em sites de manifestos pregando a volta do “Duce´´ [NOTA: a volta do conceito, pois Mussolini está morto há muito tempo] quase sempre há um banner com os dizeres “Giustizia per Gabriele (Sandri)´´.

Apoio à causa da Lazio? Não. Bem mais provável que Sandri tenha, de certo modo, se tornado uma bandeira, um mártir, ainda que timidamente, ainda que ele jamais tenha sido fascista, de um fenômeno que se alastra no undergroung: a (sub-)cultura fascista.

criado por claudinhagiron    10:27 — Arquivado em: Mundo

III.

Não, as pessoas não sairão às ruas com placas estampadas com a foto de Gabriele. Mas não nos espantemos se já existirem camisas e, em datas pontuais, forem feitas homenagens, não só na Curva da Lazio, ou de suas aliadas, mas também fora da Itália.

O Fascismo ganhou ares de proibição, contravenção e por isso mesmo vem gerando curiosidade na juventude que não o viveu. Também agora, o italiano jovem está muito frustrado - em proporções assombrosamente menores às do início do século passado, mas está. A Itália tem um dos padrões de vida mais caros da Europa. O jovem italiano que sai da vida universitária não consegue encontrar um emprego que o mantenha, sozinho; outros o conseguem com facilidade e vêem as pilastras da velha cultura judaico-cristã em que acreditavam, ruir à acessibilidade que conquistaram.

Procure por material fascista no Youtube. Leia os comentários ou converse com os autores e se surpreenda: é a gente de hoje, de 1990 a 1992, no máximo, que cultua a memória de Mussolini e a prosperidade aparente da Itália fascista.

O Fascismo tem sido um tema muito recorrido, ultimamente, principalmente no cinema italiano. A produção histórica “romanceada´´ ao mesmo tempo que foca o ponto de vista do perseguido do regime, o mostra sempre sendo tolhido de um ambiente muito agradável, organizado, limpo. Nas mãos de Roberto Benigni, isso se torna “La Vita E´Bella´´, e a comprovada verdade histórica fascista é chicoteada com sutileza o bastante para entendermos sua violência.

O que se passará, porém, na mente daquele jovem desesperado que ouve “Me ne frego´´ e vê muitos imigrantes e citadinos italianos de outras nações [NOTA: a Itália precisa de integração internacional a seu quadro de cidadãos, pois teve unificação nacional tardia] ocuparem (em sua concepção) um lugar que era seu?

Deverá esse italiano “marchar para não morrer´´(6)? Para ele, a guarda de Monte Castello é uma brigada heróica, e justamente porque foi derrotada. A derrota, o trágico, o elemento do dito amor incondicional de quem morreu defendendo sua pátria - ainda que Monte Castello fosse uma tomada sem a menor importância estratégica) é um elemento de paixão, de romance.

Pode ser que Mussolini seja aquele apaixonado dos livros romancistas que ganhou sua donzela (a Itália) em confronto com um inimigo voraz - a miséria do pós-Guerra. Da sub-cultura ao culto, da instalação à intolerância, é sempre uma estrada pequena. ZetaZeroAlfa cantando a Gabriele com a saudação romana, com o público repetindo o “Seig Heil´´ a plenos pulmões.

Será esse o romance que existe no Fascismo? Se for, quão felizes são os céticos desiludidos.

[NOTAS]

(1) “Duque, a minha luz´´.
(2) um dos lemas de Mussolini, que diz “Quem abandona é um assassino´´.
(3) canção em homenagem à resistência aos soviéticos.
(4) a saudação fascista.
(5) música feita para garantir incentivo popular à invasão de Mussolini à África.
(6) “Marcciare per non morire´´, outro lema do Fascismo que pregava a italianidade como superior, desde que associada ao sistema.

criado por claudinhagiron    10:24 — Arquivado em: Mundo

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